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CapĂ­tulo 57 — A Mercadoria Danificada


RaĂșl explicou: 

— Mesmo depois que os sintomas dela desapareceram, eu visitava o mĂ©dico todos os anos para buscar o remĂ©dio, mas nem eu conseguia falar com ele facilmente. Eu nĂŁo sei onde ele reside porque ele mantĂ©m o seu paradeiro em segredo.

— Segredo? — repetiu CĂĄssel.

— De acordo com o homem que o apresentou inicialmente, este mĂ©dico esteve envolvido num certo incidente lamentĂĄvel com a corte real de Peraline.

Uma carranca profunda apareceu no rosto de CĂĄssel. 

— Ele deve ter deixado um paciente morrer.

RaĂșl balançou a cabeça. — Eu fiz a mesma suposição que o senhor no inĂ­cio, mas nĂŁo foi o caso. Certamente alguĂ©m de alta posição faleceu sob os cuidados dele, mas eu nĂŁo consegui descobrir a verdade sobre se o mĂ©dico era responsĂĄvel pela morte do paciente. Aparentemente, o ministro das finanças anulou o veredito de assassinato em primeiro grau da corte real. AtĂ© mesmo a sentença do rei foi eventualmente anulada por outros membros da famĂ­lia real.

— EntĂŁo... — CĂĄssel fez uma pausa e pensou cuidadosamente. — O senhor quer me dizer que o mĂ©dico tinha conquistado o favor de tais pessoas?

— Esse Ă© o meu palpite. — RaĂșl assentiu. — AlguĂ©m atĂ© mobilizou os guardas do palĂĄcio para proteger o mĂ©dico contra os cavaleiros do rei. Quer os seus apoiadores precisassem dele para continuar a tratar suas doenças ou estivessem a pagar a dĂ­vida depois que ele curou a doença de suas famĂ­lias, eles queriam o mĂ©dico vivo.

CĂĄssel levantou uma sobrancelha. 

— Tanto que estavam dispostos a se opor ao rei?

— Sim. Mais tarde descobri que o paciente em questĂŁo era o prĂ­ncipe de seis meses. Tanto o rei quanto a rainha nĂŁo concordaram com o tratamento crĂ­tico, e tentaram culpar o mĂ©dico pela morte repentina do prĂ­ncipe.

— Entendo.

— Portanto, este mĂ©dico estĂĄ escondido hĂĄ uma dĂ©cada. É por isso que devemos primeiro garantir uma linha de comunicação com ele para evitar desperdiçar nosso tempo a encontrĂĄ-lo em Peral.

De fato, a viagem poderia se tornar uma tremenda perda de tempo. O Reino de Peral era uma pequena nação interior, a vårias fronteiras ou a uma longa viagem de barco de distùncia. A jornada levaria pelo menos um ou dois meses.

CĂĄssel assentiu, ainda com a carranca. — Se ele enfrentou tantas ameaças, por que nĂŁo fugiria para outro paĂ­s com os recursos fornecidos pelos seus apoiadores?

— Ele Ă© um homem cauteloso e nĂŁo confia em ninguĂ©m. Por isso, ele vagueia de um lugar para outro, evitando criar raĂ­zes em qualquer lugar.

— O Duque Valeztena fez outra oferta? O senhor disse que este mĂ©dico foi o Ășnico que conseguiu reduzir os sintomas de InĂȘs.

RaĂșl suspirou. — Sua Graça jĂĄ ofereceu tudo o que o mĂ©dico poderia desejar, incluindo um tĂ­tulo, terras e seguranças. Mesmo depois que Sua Graça implorou para ele ficar, o mĂ©dico ainda insistiu que queria viver sua vida em sua terra natal.

— Apesar de todas as ameaças Ă  sua vida e de viver escondido? — perguntou CĂĄssel.

— A pessoa comum aceitaria a oferta, mas ele mal podia esperar para deixar Perez durante sua visita de dois meses. Ele alegou que nĂŁo queria mais ver ninguĂ©m de sangue nobre. Na verdade, ele sĂł concordou em tratar Vossa Senhoria por causa da sua curiosidade sobre os sintomas raros dela. Inicialmente, ele recusou-se a tratĂĄ-la por causa de seu status social.

— Eu nĂŁo tenho interesse na curiosidade dele — cortou CĂĄssel. — Por que o Duque Valeztena nĂŁo quebrou o tornozelo dele e o forçou a ficar em Perez?

Os olhos de RaĂșl arregalaram-se. Ele olhou, surpreso, para o rosto descarado de CĂĄssel. Embora nem o Duque Valeztena nem CĂĄssel concordassem, RaĂșl pensou que os dois homens partilhavam muito em comum. 

Ambos pareciam ser indivíduos íntegros, mas tinham um lado sombrio em suas personalidades. Ambos tendiam a ser generosos com seus funcionårios domésticos, mas tinham um ar de autoridade inata que ocasionalmente o intimidava. Ambos os homens eram razoåveis e, no entanto, recorriam a quaisquer meios necessårios para alcançar algo em que punham a cabeça.

— Tenho certeza de que Sua Graça considerou essa opção... — RaĂșl lembrou-se do olhar mortal do Duque Valeztena. O duque atĂ© disse a RaĂșl que preferia matar o mĂ©dico a deixĂĄ-lo ir embora. RaĂșl continuou: — De qualquer forma, Vossa Senhoria começou a se recuperar, e seus sintomas logo desapareceram por completo. EntĂŁo, Sua Graça ficou tomado pela alegria... e nĂŁo tinha mais uma desculpa para manter o mĂ©dico por perto.

A testa de CĂĄssel se franziu um pouco. — Mas a doença pode voltar.

— Naquele momento, nĂłs acreditamos firmemente que ela tinha se recuperado completamente — respondeu RaĂșl.

— Eu aposto que vocĂȘ nĂŁo acreditou. — CĂĄssel olhou diretamente para ele. — E vocĂȘ deve ter se preparado para o pior. — A voz dele soava aliviada por RaĂșl ter garantido a medicação antecipadamente; ao mesmo tempo, tinha um toque de inveja pesarosa que RaĂșl nĂŁo conseguia entender.

RaĂșl assentiu. — Eu respondi como Sua Graça atĂ© que o mĂ©dico Peraline admitiu que nĂŁo tinha tratado a doença. Ele disse que os seus tratamentos apenas pretendiam reduzir os sintomas temporariamente e que ele nĂŁo sabia por que a condição de Lady InĂȘs melhorou subitamente. EntĂŁo, ele sugeriu que eu reabastecesse periodicamente a medicação para emergĂȘncias. Foi tudo o que ele pĂŽde oferecer...

RaĂșl baixou os olhos, sua mente vasculhando as memĂłrias. O silĂȘncio encheu a sala antes que ele acrescentasse: 

— Ele tambĂ©m disse que nĂŁo queria ser responsĂĄvel por uma mulher que poderia cair morta a qualquer momento. — O rosto de CĂĄssel ficou rĂ­gido, os olhos fervendo. Ele olhou para RaĂșl como se o homem Ă  sua frente fosse o mĂ©dico, mas RaĂșl nĂŁo encontrou os olhos de CĂĄssel.

— Ele disse que nenhum outro mĂ©dico poderia fazer mais por ela do que ele... e ele sabia do que estava falando. Ele foi o Ășnico que forneceu tratamento que melhorou minimamente a condição dela.

O maxilar de CĂĄssel estremeceu. — Mas o Duque Valeztena nĂŁo poderia ter chamado todos os mĂ©dicos do mundo.

— Tecnicamente, o senhor estĂĄ correto, mas... — A voz de RaĂșl falhou.

— EntĂŁo, eu posso continuar a procurar onde ele parou — disse CĂĄssel. Um leve sorriso soltou os seus lĂĄbios tensos. — É claro que eu tambĂ©m trarei aquele mĂ©dico Peraline para Calztela.

RaĂșl olhou para ele, cortĂȘs, mas duvidoso. — Sim, meu senhor. Eu posso continuar a escrever para ele, mas esta Ă© a primeira vez que ele nĂŁo responde por tanto tempo...

— Eu o farei admitir que fez uma declaração precipitada.

Embora CĂĄssel mostrasse o seu raro sorriso, o brilho aterrorizante nos seus olhos ainda deixava RaĂșl dominado. Ele nĂŁo se parecia em nada com o homem que alimentava InĂȘs no seu colo. RaĂșl podia dizer que a paciĂȘncia do homem estava se esgotando.

— O Duque Valeztena nĂŁo devia tĂȘ-lo deixado ir em primeiro lugar.

RaĂșl tentou intervir: — Sua Graça sĂł pretendia...

— A medicação de emergĂȘncia nunca foi suficiente desde o inĂ­cio. Aquele mĂ©dico devia ter ficado em Perez por mais tempo, e vocĂȘ devia ter conseguido mais remĂ©dio para InĂȘs antes que ela chegasse aqui. NĂłs devemos manter o mĂ©dico ao redor de InĂȘs para sempre, mesmo que tenhamos que quebrar as pernas dele para o manter aqui. — CĂĄssel estava pronto para estrangular o homem que ele ainda nĂŁo tinha conhecido, mas falou com uma intensa Ăąnsia pela Ășnica solução que os Valeztenas tinham encontrado para a doença de InĂȘs.

RaĂșl evitou o olhar azul e abrasador de CĂĄssel sem parecer muito ansioso para esconder qualquer coisa.

— Eu suponho que o duque nĂŁo ouviu o que aquele mĂ©dico disse quando ele fugiu de Perez? — CĂĄssel sabia que o Duque Valeztena nunca teria deixado o mĂ©dico ir embora livremente se soubesse a blasfĂȘmia que o mĂ©dico tinha dito.

RaĂșl nĂŁo teve escolha senĂŁo responder: — NĂŁo, meu senhor.

— E a duquesa?

— Ela tambĂ©m nĂŁo ouviu.

— EntĂŁo, como soube?

— Ele proferiu essas palavras depois de tratar Lady InĂȘs pela Ășltima vez. Apenas Juana e eu estĂĄvamos ao lado dele.

Infelizmente, RaĂșl estava numa situação difĂ­cil e lutava para manter a compostura na presença de CĂĄssel — mais avassaladora do que o habitual. RaĂșl nĂŁo podia juntar forças com CĂĄssel, como o seu coração desejava, nem enganar CĂĄssel, como InĂȘs lhe havia ordenado.

Engolindo um suspiro, RaĂșl disse a si mesmo que tinha permissĂŁo para dizer isso ao outro homem. Ele nĂŁo tinha deixado escapar nenhuma informação crucial.

CĂĄssel resumiu: — EntĂŁo, tanto o duque quanto a duquesa nĂŁo fazem ideia desta situação... Mas vocĂȘ e Juana sabem.

— Sim, meu senhor.

— InĂȘs sabe...?

RaĂșl hesitou. — Sim... ela sabe.

CĂĄssel mordeu o lĂĄbio inferior. 

— Ela o ouviu dizer que poderia cair morta a qualquer momento?

— Lamento dizĂȘ-lo, mas sim.

— EntĂŁo, ela sabia disso o tempo todo... — CĂĄssel murmurou.

RaĂșl balançou a cabeça. 

— Mas essa Ă© meramente a opiniĂŁo de um mĂ©dico. Desde entĂŁo, ela nunca mais apresentou sintomas atĂ© o incidente recente. Como mencionei antes, Vossa Senhoria nunca tentou esconder alguma doença grave do senhor. Ela acreditava que a doença tinha sido curada...

— Se o senhor estĂĄ prestes a mencionar a falha dela, dispense. JĂĄ ouvi o suficiente da sua patroa.

RaĂșl curvou a cabeça. — Minhas desculpas, meu senhor.

— Se vocĂȘ tambĂ©m me considerou um homem que usaria a doença da minha esposa para alguma barganha, eu lamento isso. Mas nĂŁo quero desculpas. Eu sĂł quero uma explicação completa, Ballan.

Para ganhar a confiança de CĂĄssel, RaĂșl revelou segredos pelos quais InĂȘs jamais o perdoaria. Mas CĂĄssel ainda pressionava RaĂșl para descobrir algo mais. RaĂșl evitou o seu olhar formidĂĄvel. Embora RaĂșl tivesse se acostumado com esse tipo de tratamento vindo do outro homem, toda vez que CĂĄssel olhava nos seus olhos com um olhar ardente, isso o fazia se sentir desconfortĂĄvel novamente. 

CĂĄssel disse: — VocĂȘ nĂŁo precisa defender InĂȘs em primeiro lugar. Eu jĂĄ sei que Ă© profundamente leal a ela.

RaĂșl hesitou antes de responder: — Portanto, eu queria sugerir que eu mesmo poderia viajar para Peral para encontrĂĄ-lo...

— EntĂŁo, quem servirĂĄ InĂȘs nesse meio tempo?

— Esta residĂȘncia jĂĄ tem muitos funcionĂĄrios a servi-la...

CĂĄssel cortou RaĂșl. — Isso nĂŁo serve. — Mesmo que CĂĄssel nunca se importasse com RaĂșl, ele jamais toleraria dois meses de ausĂȘncia de RaĂșl por causa de InĂȘs. Esquecendo sua prĂłpria lealdade excessivamente zelosa, RaĂșl se perguntou por um momento se CĂĄssel mimava InĂȘs demais. O entusiasmo de CĂĄssel atĂ© preocupou RaĂșl.

— NĂŁo precisa se preocupar com o assunto. Eu posso usar funcionĂĄrios de Esposa em vez de vocĂȘ — disse CĂĄssel.

RaĂșl balançou a cabeça. 

— Mas esta missĂŁo precisa ser discreta. Os funcionĂĄrios de Esposa nĂŁo conheceriam Lady InĂȘs...

— Esses funcionĂĄrios sĂŁo leais a mim, nĂŁo ao meu pai — vocĂȘ tambĂ©m nĂŁo precisa se preocupar com isso — disparou CĂĄssel. RaĂșl fechou a boca diante do tom evidente de aviso na voz de CĂĄssel. — Ballan, tudo o que espero do senhor Ă© que coopere com eles. Mesmo que a cooperação exija que se esqueça dos pedidos de sua patroa por um momento.

RaĂșl curvou a cabeça. — Sim, meu senhor.

CĂĄssel ainda nĂŁo parecia satisfeito e olhou feio para RaĂșl. O olhar inabalĂĄvel de CĂĄssel perscrutava o outro homem, e atĂ© mesmo o indiferente RaĂșl se sentiu compelido a inventar um crime para confessar e agradar CĂĄssel. — Na verdade, eu devia saber que nĂŁo deveria lhe dar ordens contra os pedidos de InĂȘs — disse CĂĄssel. — VocĂȘ atĂ© guardou o segredo dela na frente do Duque Valeztena.

RaĂșl engoliu em seco, sem jeito, com a acusação. — Ela nĂŁo me pediu isso. Eu escolhi ficar em silĂȘncio.

— AtĂ© parece — zombou CĂĄssel. — Se ela pedisse para pular da janela, vocĂȘ pularia primeiro e faria perguntas depois.

— Eu estava preocupado que Sua Graça pudesse matar o mĂ©dico por raiva passageira... Mesmo que o homem tivesse feito um comentĂĄrio impertinente, ele era a Ășnica esperança para tratar Vossa Senhoria. Ele jĂĄ tinha salvado a vida dela vĂĄrias vezes, e eu esperava que ele fizesse isso vĂĄrias vezes mais. Pensei que ficar em silĂȘncio sobre a insolĂȘncia do mĂ©dico seria melhor para ela tambĂ©m...

CĂĄssel interrompeu. — O que InĂȘs disse?

— PerdĂŁo?

— O que ela disse depois que o mĂ©dico lhe disse que ela poderia morrer?

— Ela disse... que a vida dela era muito valiosa para ser colocada nas mĂŁos inĂșteis dele.

CĂĄssel soltou uma risada seca.

RaĂșl acrescentou: — Ela tambĂ©m perguntou se ele poderia ter certeza da sua prĂłpria sobrevivĂȘncia cinco minutos depois, jĂĄ que ela poderia empurrĂĄ-lo escada abaixo.

Os lĂĄbios de CĂĄssel se curvaram num meio sorriso. — É claro que ela teria a Ășltima palavra. — Esfregando a palma da mĂŁo no rosto, ele olhou pela janela.

RaĂșl encarou as costas largas de CĂĄssel e viu a tensĂŁo em seus ombros. Assim que RaĂșl mencionou a possibilidade da morte de InĂȘs, CĂĄssel havia ficado tenso e permaneceu assim desde entĂŁo.

RaĂșl soltou: — Vossa Senhoria... nunca deu muita atenção Ă s palavras do mĂ©dico, como se soubesse a resposta o tempo todo.

— Sim... jĂĄ que ela sabe de tudo — concordou apaixonadamente CĂĄssel. — Ela subitamente melhorou e simplesmente disse que era hora de acabar.

CĂĄssel murmurou: — Era hora de acabar... — As palavras soavam muito parecidas com o que InĂȘs diria, mas ao mesmo tempo misteriosas. 

— Como ela mesma disse, ela tem estado saudĂĄvel nos Ășltimos anos... Com o evento recente, eu me preocupei que sua doença misteriosa pudesse ter voltado, mas ela nĂŁo teve nenhuma convulsĂŁo que eu esperaria ver com base nos sintomas anteriores. É por isso que o senhor nĂŁo precisa se apressar ou se preocupar demais. HĂĄ bastante medicação — explicou RaĂșl.

— Mas eu nĂŁo quero que ela tome nenhum remĂ©dio em primeiro lugar.

— Aquela noite foi um incidente isolado, e...

CĂĄssel interrompeu mais uma vez. 

— Eu nĂŁo quero que ela desmaie novamente em primeiro lugar.

RaĂșl assentiu, mas se sentiu frustrado. — Claro, isso seria o ideal. Ainda assim, ela estĂĄ muito melhor agora do que antes...

CĂĄssel desviou a atenção da janela para a porta. RaĂșl parou de falar, e um silĂȘncio estranho se instalou. — Alfonso? — chamou CĂĄssel. Seus olhos aguçados haviam notado o mordomo silencioso no corredor. RaĂșl deu um pulo e virou-se para a porta.

Alfonso deu um passo Ă  frente e disse: — Acabei de ouvir a notĂ­cia de que o senhor estava a minha procura, meu senhor.

— Ah, sim. Eu chamei por vocĂȘ — CĂĄssel respondeu.

RaĂșl olhou entre o rosto calmo de CĂĄssel e Alfonso, que nĂŁo fazia esforço para esconder seu desconforto. Quando o mordomo desviou o olhar, RaĂșl estreitou os olhos e o examinou.

— Eu nĂŁo queria ouvir a conversa do senhor, mas falhei em sair na hora certa — Alfonso admitiu.

— EstĂĄ tudo bem — disse CĂĄssel. — Eu precisava de vocĂȘs dois neste trabalho de qualquer forma.

Com uma mistura de emoçÔes girando em seus olhos, Alfonso abriu os lĂĄbios, mas nĂŁo disse nada. É claro que RaĂșl notou a ambivalĂȘncia do mordomo. RaĂșl rapidamente mudou seus olhos para estarem cheios de lealdade e puxou seu bloco de notas de confiança.

— Alfonso tem entrado em contato com mĂ©dicos atravĂ©s das guildas Divaluanas. O plano era que ele selecionasse alguns candidatos promissores para cruzar a fronteira.

— Ah, entendo — assentiu RaĂșl.

— O boato em Cavalier Street nos aconselhou a nĂŁo criarmos muitas esperanças. Aparentemente, doenças respiratĂłrias sĂŁo as mais difĂ­ceis de tratar, e a maioria dos mĂ©dicos Divaluanos famosos jĂĄ visitou Perez — acrescentou Alfonso.

— Os mĂ©dicos virĂŁo por Cavalier Street? — perguntou RaĂșl.

Alfonso nĂŁo desviou o olhar do seu mestre, mas simplesmente respondeu: — Quanto aos mĂ©dicos vindos de Divalua ou Pater.

RaĂșl diligentemente anotou.

CĂĄssel virou-se para RaĂșl. 

— AmanhĂŁ Ă  tarde, Mateo chegarĂĄ de Esposa. Mesmo que Peral seja pequeno, o seu testemunho ocular serĂĄ fundamental para encontrar este mĂ©dico.

— Entendido, meu senhor.

Em seguida, CĂĄssel virou-se para Alfonso. — VocĂȘ deve organizar os assuntos de forma eficiente para que Mateo possa retornar a Esposa na hora do jantar.

— Sim, meu senhor.

— NĂŁo se esqueça de lembrĂĄ-lo de fazer um desvio em torno de Mendoza — acrescentou CĂĄssel.

— Sim, meu senhor. — Alfonso fez uma reverĂȘncia novamente.

Os trĂȘs homens discutiram quais paĂ­ses e regiĂ”es o Duque Valeztena ainda nĂŁo havia investigado. A memĂłria aguçada de RaĂșl ajudou a eliminar a maior parte da lista, e Alfonso organizou as opçÔes restantes.

A discussĂŁo parecia pacĂ­fica, sem sequer uma menção ao nome de InĂȘs, atĂ© que CĂĄssel verificou a hora. Seu comportamento mudou num instante e ele correu para o seu quarto.

RaĂșl se aproximou das costas de Alfonso e comentou amigavelmente: 

— Dom Alfonso, o senhor parece perturbado hoje por algum motivo.

Alfonso parou por um momento e virou-se para encarar RaĂșl. Sua mĂĄscara plĂĄcida desmoronou, revelando sua raiva.

RaĂșl continuou sorrindo e acrescentou: 

— De fato, o senhor deve estar. O senhor deve ter estado perturbado o tempo todo.

— O que o faz pensar isso? — Alfonso perguntou.

— Nenhuma razĂŁo em particular — respondeu RaĂșl, exibindo outro sorriso.

Alfonso cricrilou (riu sarcasticamente). — TĂŁo astuto quanto o esperado.

RaĂșl parou de sorrir. — Dom Alfonso, eu nĂŁo entendo por que o senhor começou a agir assim de repente.

— Tecnicamente, os Valeztenas sĂŁo os astutos, nĂŁo um mero servo como vocĂȘ. O que pessoas como nĂłs poderiam fazer, afinal? — Alfonso olhou feio para RaĂșl e olhou para a pintura recĂ©m-instalada da jovem InĂȘs. Ele fez uma careta e disse: — Por quanto tempo vocĂȘ acha que os Valeztenas tĂȘm bancado o meu mestre? AtĂ© o cachorrinho obediente dos Valeztenas entenderia o que estou dizendo, Ballan.

RaĂșl respondeu: — Eu nĂŁo entendo, na verdade.

— NĂŁo podemos fazer mais nada a respeito. Lady InĂȘs Escalante jĂĄ assumiu o papel de senhora da casa, fingindo inocĂȘncia, enquanto Lorde CĂĄssel Escalante age como uma criança apaixonada — Alfonso murmurou. — Neste ritmo, nĂŁo tenho certeza se o Tenente Escalante sequer me ouviria se eu lhe contasse a verdade.

RaĂșl ficou entre o mordomo e o retrato de InĂȘs, bloqueando a visĂŁo de Alfonso. 

— O senhor estĂĄ dizendo? EstĂĄ nĂłs ameaçando?

Alfonso zombou. — Por que eu ameaçaria vocĂȘ? Para quĂȘ?

— Tudo o que o senhor fez na vida foi ser mimado numa cidade remota como esta, sĂł porque podia ler — RaĂșl provocou. Qualquer vestĂ­gio de simpatia havia sumido do seu rosto — restando apenas escĂĄrnio.

Alfonso soltou uma risada seca.

RaĂșl afetou um sorriso educado e disse: 

— Por mais que o senhor se esforce, nĂŁo pode competir com o escĂĄrnio mascarado dos Mendozanos. Quando se chama um humano de cachorro, deve-se estar preparado para o cachorro morder de volta. Afinal, o senhor nĂŁo Ă© jovem mais.

— Eu coloco meu mestre em primeiro lugar, assim como vocĂȘ coloca sua patroa em primeiro lugar, Ballan.

— Os dois sĂŁo casados e agora igualmente os mestres desta casa, mas o senhor ainda toma partido.

Alfonso cuspiu: — VocĂȘ tomou partido primeiro — e se virou.

RaĂșl o alcançou com passos elegantes e perguntou sarcasticamente: 

— Gostaria que eu jurasse lealdade ao Tenente Escalante em vez de ao sangue dos que me acolheram?

— AtĂ© cachorros abanam o rabo para aqueles de quem gostam. VocĂȘ nĂŁo pode se comparar a eles quando estĂĄ meramente fingindo ser leal — Alfonso disparou.

RaĂșl retrucou: — O senhor Ă© quem nĂŁo consegue expressar suas opiniĂ”es, mesmo agindo todo superior e imponente.

— VocĂȘ quer dizer que eu devo divulgar a verdade que vocĂȘ e sua patroa astutamente esconderam do Tenente Escalante?

— O senhor estĂĄ exagerando as coisas.

Alfonso se virou e arrastou seu olhar quieto atĂ© o rosto de RaĂșl, com a fĂșria escoada dos seus olhos. — Certo, entĂŁo. Deixe-me destilar os fatos. O fato Ă© que sua pobre patroa, que deveria estar afligida por uma misteriosa doença respiratĂłria, Ă© apenas uma mulher louca.

Agora, era a vez de RaĂșl ficar furioso. Seus olhos endureceram, fitando o outro homem com um olhar severo.

Mas Alfonso nĂŁo parou. — NĂŁo importa quĂŁo impressionante seja o tĂ­tulo com o qual ela nasceu, sua preciosa patroa Ă© apenas uma mercadoria danificada que jamais poderia se igualar ao herdeiro dos Escalante. Em vez de admitirem e implorarem por perdĂŁo, vocĂȘs todos descaradamente esconderam a verdade. Ela Ă© tĂŁo insana que consegue fazer a si mesma sufocar — ah, e o Ășltimo fato que aprendi hoje Ă© que ela pode morrer a qualquer momento.

RaĂșl fervia, mas nĂŁo falou.

— Se o Duque Escalante descobrisse, ele a trancaria em um convento para viver o resto da vida. Os Valeztenas deviam estar felizes por ela nĂŁo ser enviada para um hospĂ­cio para ser torturada, entĂŁo nĂŁo ousariam objetar. O casamento deles foi um contrato monumental entre as duas famĂ­lias dos Grandes de Ortega. Mas os Valeztenas negociaram sua filha doente como se ela estivesse inteira, entĂŁo eles nĂŁo podem argumentar se os Escalantes anularem o casamento.

— Dom Alfonso, permita-me lembrar-lhe que o senhor tambĂ©m morreria em cinco minutos se eu o empurrasse da varanda. O senhor percebe como a morte pode ser tĂŁo imprevisĂ­vel?

Alfonso suspirou: 

— Ballan.

— O senhor, Dom Afonso, Ă© de uma famĂ­lia que historicamente se aproveitou de outras famĂ­lias ilustres. Servir a outros acima do senhor nĂŁo deve ter sido uma vida ruim, jĂĄ que o senhor sempre teve outros abaixo de si, tambĂ©m. Seus pais estĂŁo vivos. O senhor foi Ă  escola, teve livros suficientes e provavelmente nunca passou fome um dia sequer na sua vida. — RaĂșl fez uma careta, desenterrando memĂłrias dolorosas.

Alfonso observou silenciosamente o quĂŁo diferente RaĂșl parecia.

— Eu nĂŁo sou como o senhor — disse RaĂșl, com o maxilar tenso. — Vossa Senhoria me deu tudo o que o senhor teve desde que nasceu. Ela me deu tudo. Ela deu um nome a este ĂłrfĂŁo. Ela me alimentou, me vestiu, me ensinou a ler e me salvou de viver nas ruas. Nenhuma mulher louca poderia cuidar de mim assim. Naquela Ă©poca, ela tambĂ©m era uma criança, mas ela era a minha Salvação. O senhor se acha tĂŁo perfeito que pode chamĂĄ-la de mercadoria danificada? Dom Alfonso, o senhor devia saber que um grĂŁo de poeira nos ombros dela Ă© mais valioso do que todo o seu ser.

Alfonso permaneceu em silĂȘncio.

— Se o seu mestre souber que o senhor falou mal dela, ele tambĂ©m concordaria comigo. Talvez a criança apaixonada que hĂĄ nele nĂŁo pare apenas em concordar comigo — ameaçou RaĂșl.

Alfonso balançou a cabeça. [

— Ele fingiria ignorĂąncia e ficaria com ela por um longo tempo. Embora eu queira que a verdade venha Ă  tona, eu nunca desejei colocĂĄ-la em apuros.

— EntĂŁo, o que o senhor queria?

— Eu sĂł quero que o Tenente Escalante evite desperdiçar seus esforços. NĂŁo suporto vĂȘ-lo despejar seu coração e esforço numa mulher que ele nĂŁo entende completamente. — A voz de Alfonso era severa. 

Ele se afastou de RaĂșl e continuou: — Eu vou guardar o segredo por mais um tempo e continuar esta missĂŁo inĂștil com vocĂȘ. Eu farei o que meu mestre deseja, mas eu revelarei a verdade se nem vocĂȘ nem sua patroa a confessarem por conta prĂłpria. Nesse dia, quem dirĂĄ se todos na casa e no cĂ­rculo social dela ficarĂŁo sabendo. Talvez todos em Ortega saibam da doença mental dela.

RaĂșl cerrou os dentes em fĂșria silenciosa.

— Agora, tudo depende de vocĂȘ, Ballan. O futuro da sua Salvação depende de vocĂȘ.

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ComentĂĄrios

  1. Amando o Cassel querendo quebrar as pernas do mĂ©dico! E odiando esse mordomo chato que estĂĄ ameaçando minha Diva InĂȘs

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