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Capítulo 70 — Um dia de reflexão

 Inês piscou lentamente os olhos, o mundo emergindo através de uma lente nebulosa. Seu olhar verde-oliva vagou pelo ambiente escuro. Um toque de bergamota, a fragrância favorita de Arondra, pairava no ar, sinalizando que ela estava na residência Escalante em Calztela.

Uma calma estranha a invadiu, suavizando os vestígios de náusea. Ela quase suspirou de alívio, mas o suspiro morreu logo em seguida.

Cássel não estava presente ao seu lado, e ela silenciosamente agradeceu às estrelas por ele ainda não ter entrado no quarto. Encará-lo agora a deixaria inquieta, aumentando seu cansaço. O sonho já a deixara exausta; falar com um Cássel sem noção depois do que ela vivenciara no sonho era uma perspectiva intimidadora. Sua mão se esticou para acariciar o vazio ao seu lado.

Ele conseguia ser extremamente perspicaz e observador sobre qualquer coisa relacionada a Inês, especialmente quando ela não se sentia bem ou não estava de bom humor. Qualquer sinal de doença desencadeava sua preocupação obsessiva, então ela preferia evitá-lo para contornar as complicações inevitáveis.

Cássel só ficaria satisfeito se Inês parecesse estar em perfeitas condições. Depois de encontrar o eu passado dele em seu sonho, ela entendeu por que ele se preocupava tanto com ela, e a revelação deixou um gosto amargo em sua boca. Era como se ela tivesse mordido uma fruta aparentemente doce, apenas para acabar mordendo a própria língua.

Arrependimento e culpa surgiram dentro dela, os tentáculos do nervosismo se insinuando como faziam sempre que ela se considerava uma tola. Se ela encontrasse Cássel agora, as memórias de seu sonho poderiam voltar, mas tudo o que emergiu foi uma inveja passageira que ela sentiu do Cássel Escalante de vinte e seis anos de sua primeira vida.

Ela se sentiu uma completa idiota.

Talvez ela tivesse esquecido uma candidata em potencial. Ela mergulhou mais fundo em suas memórias em busca de um par adequado para Cássel entre as damas de Mendoza, mas seus esforços se mostraram fúteis. Um suspiro pesado inchou em sua garganta, e ela cobriu o rosto, sentindo o peso de sua própria tolice.

Ela sabia que estava usando uma expressão artificial, como se olhos invisíveis a observassem nas sombras, como se alguém a monitorasse para garantir que ela não esquecesse o propósito de sua vida. No entanto, ela ainda se sentia uma idiota, assim como no sonho.

Reconhecendo suas tendências ciumentas passadas, Inês entreteve a noção fugaz de lançar o inocente Cássel e todas aquelas mulheres nas profundezas do oceano de Calztela. Um impulso mesquinho, impulsionado pelo orgulho ferido, sobrepôs-se à razão.

Cássel tinha a culpa por tudo. Se ele estivesse presente, sua agitação a teria feito esquecer tudo sobre o sonho perturbador... Inês então se repreendeu por entreter a esperança da companhia dele depois de tudo o que fizera com ele em seu sonho.

Ainda assim, ela não podia negar que odiava a cama grande e o vazio que a saudava ao despertar. A ausência dele ecoava profundamente.

Sentindo-se atipicamente sentimental, Inês cobriu o rosto. Seria essa emoção resultado do sonho ou uma manifestação de suas memórias passadas?

Ela se sentiu derrotada quando finalmente admitiu para si mesma que, no fundo, ela esperava acordar com o rosto familiar dele. Este lugar, de fato, tinha o poder de fazê-la sentir as coisas mais estranhas.

— Você acordou? — A voz de Cássel interrompeu seu devaneio, uma intrusão doce, porém indesejada.

O som da porta da varanda se fechando veio logo em seguida, antes que ele acrescentasse:

— Você deveria ter dormido mais.

— Que horas são agora? — perguntou Inês.

Puxando um relógio de bolso, ele olhou e respondeu:

— Quatro horas.

— Da manhã...?

— Sim.

— Por quanto tempo eu dormi?

— Não muito. Cerca de onze horas ou mais. — Quando se tratava de Inês, seus padrões de pontualidade tendiam a ser muito lenientes.

— Você deveria ter me acordado...

— Mas você não está bem.

— Eu estou bem — disse ela.

Sentando-se na beira da cama, ele insistiu:

— Você está doente.

Curiosamente, a presença dele parecia preencher o vazio dentro dela. Se Inês soubesse que ele apareceria tão cedo, ela nunca teria admitido seus sentimentos vergonhosos para si mesma.

Ela não teve a chance de zombar de sua própria hipocrisia, já que todos os seus sentidos já estavam sintonizados em cada movimento dele. Assim como ela o observara em seu sonho, ela prestava muita atenção nele, e sua silhueta ganhava clareza na escuridão.

Seus olhares se encontraram. Os olhos dele se arregalaram de surpresa; embora ele tenha sorrido, o sorriso não alcançou seus olhos.

Ele suspirou:

— Você estava com febre — colocando a mão fria na testa dela, gelada pelo ar externo. Sentindo a marcada diferença de temperatura, Inês finalmente percebeu que ela realmente tinha uma febre leve. Mas ela não se preocupou muito com isso, já que geralmente tinha uma febre leve por volta desta época do ano.

— Eu mal sinto calor — observou ela.

A mão de Cássel pausou brevemente antes de pressionar gentilmente contra sua testa, desafiando sua afirmação de não ter febre. Mas Inês estava distraída pela brisa do oceano e um leve cheiro de fumaça de charuto, quase imperceptível para a maioria. Ocorreu-lhe que ele devia ter fumado um charuto há algum tempo.

— Há quanto tempo você está na varanda? — ela perguntou. — Suas mãos estão tão frias.

— Desculpe. Elas devem estar congelando. — Ele retirou abruptamente as mãos, deixando Inês surpresa.

Agarrando suas mãos no ar, ela estimou:

— Uma ou duas horas?

Cássel olhou para as mãos dele nas dela, momentaneamente perdido em pensamentos antes de perceber a pergunta dela.

— Ah, não tanto tempo.

Ela adivinhou novamente:

— Três horas?

— Apenas algumas.

— Por quê?

— Por causa do cheiro de charuto.

— O cheiro?

— Eu estava preocupado que o cheiro tivesse impregnado minhas roupas — ele esclareceu.

Inês lutou contra o desejo de soltar um suspiro.

A maioria dos homens ricos desfrutava do luxo de uma sala de charutos dedicada em suas casas, mas esta residência abrigava apenas um pequeno cômodo apertado que lembrava uma cela de prisão. Então, Cássel frequentemente fumava na varanda, no terraço do primeiro andar ou no jardim. Tornou-se uma rotina para ele passar um tempo considerável do lado de fora depois de se entregar ao charuto, preocupado que Inês pudesse franzir a testa com o cheiro persistente.

Mesmo no inverno relativamente ameno de Calztela, o ar da manhã e da noite ainda tinha um arrepio vigoroso. Ela não conseguia suprimir um suspiro frustrado sempre que o via parado no frio por muito tempo. Não importava o quão enfaticamente ela lhe assegurasse que o cheiro não a incomodava, ela se via incapaz de convencê-lo.

Ela o deixara fazer o que quisesse até agora, mas hoje, ela não podia ignorar a preocupação que a puxava. Por que ele persistia dessa maneira? Seria um plano elaborado para evocar sua piedade? Mas ela descartou a noção. Cássel não tinha astúcia para tais esquemas. Se ele possuísse esse nível de ardil, provavelmente não teria se apaixonado por ela em primeiro lugar. 

Este tolo involuntário... ela ponderou.

— Sua mão está tão fria... Por que não expulsa Alfonso e transforma o quarto dele em uma sala de charutos? — sugeriu Inês.

Cássel riu.

— Não posso fazer isso com ele.

— Então, por que você simplesmente não fuma no quarto?

— Isso é ainda menos provável do que expulsar Alfonso do quarto dele.

Em sua primeira vida, Inês fumara mais charutos do que a média dos homens, então ela não via a necessidade de seu comportamento. Na verdade, ela apreciava a fragrância esfumaçada.

— Então, pare de fumar de vez.

— Estou tentando reduzir — ele concordou.

Alfonso lhe dissera que Cássel costumava fumar a noite inteira, mas desde o casamento, ela só o vira se entregar a um ou dois charutos por noite. Se ele reduzisse ainda mais, mal fumaria. Mesmo em Mendoza, antes de se casarem, ele nunca cheirava a fumaça de charuto...

Foi só então que Inês percebeu que Cássel seguia essa rotina há anos, mesmo durante seus dias como um fumante ávido. Com essa percepção, ela soltou o aperto de sua mão.

Cássel, alheio às suas reflexões internas, a aninhou no cobertor. Olhando silenciosamente para ele, Inês foi recebida com um sorriso que a fez pensar que nada de ruim jamais acontecera entre eles.

— Fique saudável, Inês — disse ele em um tom sonolento que a transportou de volta à inocência de uma menina de nove anos.

Estranhamente, ela não se importou. Ela devia estar perdendo o juízo, pensou ela, permitindo que as emoções sobrepujassem a razão.

— Mas eu já estou. Não estou doente...

— Tudo bem, tudo bem. Apenas volte a dormir — Cássel persuadiu, inclinando-se sobre ela para formar um teto reconfortante. Naquele momento, Inês sentiu como se ele fosse a única presença confiável em seu mundo. Sem hesitação, seus lábios se encontraram em uma série de beijos. A língua dele mergulhou mais fundo, acariciando a dela em um abraço quente. Embora ela não tivesse problemas para respirar, um gemido escapou dela.

Empurrando-o, ela virou a cabeça.

— Você vai pegar minha febre.

— Se você não está doente, não deve haver nada para eu pegar.

— Ok, então... eu estou doente. Feliz? Então...

Seus lábios reivindicaram os dela novamente, um beijo breve, porém mais intenso. Os lóbulos de suas orelhas queimaram em vermelho vivo, e ela silenciosamente agradeceu à escuridão que envolvia o quarto.

Inês retomou seu protesto.

— Eu acabei de lhe dizer que você vai pegar minha febre...

— Estou tentando pegá-la de você. Então, não deve ser um problema. — Cássel deu de ombros.

— O quê?

— Graças a você, posso tirar alguns dias de folga do treino.

Ela quis retrucar, rindo sobre como sua resistência anormal deveria servir como uma fortaleza contra qualquer vírus, mas suas palavras permaneceram não ditas até que ele se ergueu.

— Você... — ela finalmente proferiu.

— Hmm? — ele perguntou.

— Você não vai dormir?

— Eu tenho treino de manhã. Se eu dormir agora, não vou acordar a tempo.

— Você... ficou acordado a noite toda?

Em vez de culpá-la por sua falta de sono, Cássel simplesmente sorriu.

— Sua febre estava mais alta antes. Depois da meia-noite, começou a baixar. Eu lhe dei um remédio de madrugada, então você deve se sentir melhor na hora do almoço. Espero ter pego sua febre, e que você melhore logo. Sinto muito por tê-la deixado tão doente, Inês.

Ela ficou sem palavras. Ele estava se desculpando pela doença dela quando ela deveria ser a única a oferecer desculpas. Ele havia tirado as palavras da boca dela.

— Durma bem — disse ele. — Voltarei mais tarde.

Inês ainda não sabia como agir com este Cássel.

***

— Venha cá, Raúl.

Raúl instintivamente parou assim que ouviu a voz vindo da sala de jantar pela qual estava passando.

— A senhora estava me procurando, minha senhora? — ele perguntou ao entrar na sala.

— Não exatamente. Eu apenas chamei quando notei você passando — explicou Inês.

Havia um toque de perplexidade no olhar de Raúl, que de outra forma era direto e firme. O fato de ela estar sentada na cabeceira da mesa quando não era hora de refeição era tão atípico dela.

— Como posso ajudá-la? — ele perguntou-lhe obedientemente.

— Eu... — ela começou, lutando para articular seus pensamentos.

— Perdão?

— Eu... — ela tentou mais uma vez, falhando novamente em formar uma frase.

— A senhora ainda está se sentindo indisposta pela febre de ontem à noite? — ele perguntou com genuína preocupação, inclinando-se para estudar seu rosto.

Inês rapidamente o dispensou com uma mão enquanto enterrava o rosto na outra. Ele podia ver sua expressão contorcida em miséria através do espaço entre seus dedos. Parecia que ela estava prestes a cobrir o rosto com as duas mãos e baixar a cabeça sobre a mesa.

— O segundo dia geralmente é o pior — disse ele. — Embora sua febre pareça ter diminuído, é melhor não se esforçar.

Inês levantou a cabeça ligeiramente, franzindo as sobrancelhas.

— Tudo o que fiz foi descer as escadas. Isso dificilmente é um esforço exaustivo.

— Mesmo caminhadas curtas podem ser exaustivas para alguém em recuperação — Raúl insistiu.

— Eu lhe disse, estou bem — ela manteve.

— A senhora sempre sofre de febre nesta época do ano — ele a lembrou. — Nunca se sabe quando pode adoecer novamente.

— Eu não tenho mais febre, então como eu... esquece. Eu estava simplesmente lutando para articular meus pensamentos. Não perdi minha sanidade — ela assegurou.

— Ah, entendo. Por favor, prossiga — ele encorajou.

Os lábios de Inês se contraíram em uma linha tensa, como se ele tivesse acabado de sugerir que ela pulasse de um penhasco. Ela olhou para a mesa, soltando um suspiro antes de finalmente expressar seus pensamentos.

— Não acredito que estou pedindo para você fazer isso, mas... Raúl, eu gostaria que você fosse checar Cássel.

— Está me pedindo para espioná-lo novamente? — ele perguntou casualmente.

Sua calma, um lembrete gritante de sua familiaridade em espionar o marido dela, a deixou momentaneamente congelada, como se suas palavras carregassem uma reprovação implícita.

Raúl era um mestre em descobrir cada detalhe sobre uma pessoa. E quando se tratava de alguém tão famoso quanto Cássel Escalante em uma comunidade tão unida, era virtualmente impossível não encontrar rumores sobre ele. Todos nesta bela cidade costeira ouviam pelo menos algumas histórias sobre Cássel. Muitos rumores circulavam, alguns plausíveis, outros absurdos; se você peneirasse todos eles, havia muitos que se sobrepunham e, portanto, eram mais críveis. Claro, Raúl Ballan era sábio o suficiente para navegar habilmente por eles e pular os absurdos.

Sua busca clandestina se estendera de Calztela até El Tabeo, trazendo-lhe todo tipo de histórias sobre Cássel. Isso significava que ele havia esgotado todas as informações disponíveis.

Mas Raúl sabia que sua senhora não era tão delicada a ponto de se sentir culpada por isso agora e, certamente, ela não gostaria de ouvir as mesmas histórias duas vezes.

Por outro lado, também não fazia sentido para Inês Valeztena ordená-lo a espionar seu marido recém-casado meio ano atrás. Do ponto de vista de Raúl, ela não era o tipo de pessoa que se importava o suficiente com os outros para recorrer à espionagem.

— Não é isso que eu quero dizer — ela murmurou.

— Hum?

— Não estou pedindo para você espioná-lo. Apenas... verifique como ele está — ela esclareceu.

Raúl inclinou a cabeça.

— Verificar como ele está...?

— Verificar como ele está indo — ela elaborou, com uma nota de frustração na voz.

— Perdão? — ele repetiu.

Ela lançou-lhe um olhar incisivo.

— Por que você continua fingindo que não entende o que eu quero dizer?

— Verificar como ele está indo... o que exatamente, minha senhora? — ele perguntou uniformemente.

— Se ele está bem. Se ele parece doente — ela murmurou.

— Doente? O Tenente Escalante? — ele perguntou, parecendo perplexo.

Inês deu de ombros. Admitidamente, era um pedido incomum, considerando que fazia pouco sentido para alguém com uma saúde tão robusta adoecer de repente.

— Eu mesmo me despedi dele esta manhã cedo, mas não notei nenhum sinal de desconforto. A senhora por acaso observou algo nas primeiras horas? — Raúl perguntou.

— Ele provavelmente está bem.

— Então por que... — ele parou, buscando esclarecimento.

— Vá e confirme que ele está bem — ela insistiu.

Raúl a encarou, momentaneamente sem palavras.

— Presumo que o treino matinal dele acabou.

— Sim — ele confirmou. — Deve ter terminado há um tempo, já que é quase meio-dia.

— Então por que você não leva alguns... lanches ou algo com você? — Inês sugeriu com indiferença.

— O suficiente para todos os oficiais de logística? — ele perguntou.

— Sim. Perfeito. E leve uma caixa de charutos de Prusse com você, bem como uma garrafa de vinho para cada um deles — ela instruiu, recuperando a confiança.

Era a oportunidade perfeita para construir sua reputação de esposa atenciosa, ela pensou.

Mas isso realmente importava, agora que as coisas tinham saído completamente do controle? Inês apertou a ponte do nariz novamente. 

Por que eu tive que ser tão sem noção naquela época? ela lamentou, uma onda de culpa e arrependimento ressurgindo ao recordar do sonho-lembrança.

Talvez ela não tivesse tido o espaço para respirar como princesa herdeira para notar essas coisas. No entanto, em seu estado atual de agitação, ela não conseguia considerar essa possibilidade.

Após um sono repousante que milagrosamente subjugara sua febre, exatamente como Cássel havia assegurado, a mente de Inês tornou-se um mar turbulento de contemplação. Ela não conseguia se livrar do peso de sua revelação. O sonho havia descascado camadas de seu passado, expondo emoções escondidas sob a superfície. Se ela não tivesse justaposto aqueles dias passados que vira em seu sonho com o presente, ela teria permanecido para sempre sem noção sobre os sentimentos que ele nutria por ela em sua vida passada. 

Surpresa com sua indiferença anterior, ela lutou contra a falta de consideração que velara sua percepção.

A frustração cresceu dentro dela. Obviamente, ela não podia revisitar seu passado para buscar respostas do Cássel Escalante de sua vida passada. Ela não conseguia imaginar por quanto tempo ele escondera aqueles sentimentos e por que diabos eles haviam florescido, para começo de conversa. Se ela fosse abordar tais assuntos com o Cássel atual, isso sem dúvida a faria parecer uma louca.

A percepção desconcertante de que ela talvez nunca descobrisse as respostas lançou uma sombra sobre seus pensamentos. Escolhê-lo como marido agora parecia um grave erro da parte dela.

Inês também não podia acreditar em quão rapidamente ela havia se recuperado da febre. Era uma doença da qual ela sofria todo inverno, uma parte incômoda, mas habitual de sua vida, que geralmente durava pelo menos cinco dias, se não semanas. A recuperação da noite para o dia era sem precedentes; isso a deixou lutando contra a dúvida.

E se Cássel tivesse realmente tirado a febre dela...? A incerteza nublou seus pensamentos, compelindo-a a confirmar a verdade.

— Tenho certeza de que o Tenente está em boas condições, minha senhora, mas para acalmar sua preocupação, vou verificar como ele está — Raúl disse animadamente.

— Eu não estou preocupada — Inês insistiu.

— Vou verificar como ele está para aliviar sua preo...

— Eu disse que não estou preocupada.

Raúl estreitou brevemente os olhos, a dúvida estampada em seu rosto, depois ofereceu um sorriso.

— Eu entendo, minha senhora.

Ela franziu as sobrancelhas para ele.

— Você está me provocando, não está?

— Claro que não, minha senhora. Eu não ousaria — ele afirmou.

— Aparentemente, você ousaria — Inês murmurou.

— A senhora poderia pedir a Don Alfonso para fazer isso, então.

— Por que eu faria isso?

— Eu sugeri porque a senhora parece gostar de dar ordens a ele ultimamente.

— Apenas porque você foi comprado por Escalante por praticamente nada — ela explicou.

— Tudo o que recebo dele é meu pagamento semanal, minha senhora — Raúl retrucou.

Com um bufo silencioso, ela avisou:

— É melhor você não contar a Escalante sobre o que eu disse novamente.

— A senhora também é uma Escalante — ele a lembrou.

— É suposto você manter seus inimigos mais próximos, sabe — Inês disse a ele, como se isso esclarecesse tudo.

Raúl permaneceu não convencido.

— Don Alfonso parece mais seu servo pessoal do que seu inimigo ultimamente.

Os pensamentos de Inês vagaram para Alfonso. As ameaças insignificantes do mordomo haviam sido esquecidas há muito tempo; ele não passava de um velho trabalhador, facilmente gerenciável, que se recusava a ser visto como incompetente, mesmo enquanto evitava o olhar de Inês sempre que ela estava na sala.

Enquanto os pensamentos de Inês vagavam para Alfonso, Raúl interpretou seu silêncio de forma diferente e lançou-lhe um sorriso brincalhão.

— A senhora está realmente preocupada com o Tenente, não está?

Inês franziu a testa para ele.

— A senhora se sentirá muito melhor assim que admitir que está preocupada com seu marido, minha senhora — Raúl disse a ela.

Claro que ela estava preocupada. Cássel passara a noite inteira cuidando dela antes de estupidamente sair por algumas horas no frio e partir para seu treino matinal assim que ela acordou. Qualquer um ficaria doente se se esforçasse demais em tal estado.

Mas, novamente, este era Cássel Escalante. A mãe dele certa vez lamentara sobre como seu filho mais velho não podia ser parado por nada, nem mesmo praga ou doença. Sempre que havia um surto repentino de alguma doença em Mendoza ou algo contagioso circulando em Esposa, Cássel sempre conseguia escapar de seu quarto para correr por aí com sua espada de madeira. Ela também dissera a Inês que Cássel podia estar sofrendo de febre alta e ainda assim estar escalando muros sem qualquer sinal de doença.

Era isso. Cássel podia estar doente sem ninguém notar. Era por isso que ela se sentia tão cautelosa e perturbada.

Inês impacientemente gesticulou para Raúl ir.

— Farei os preparativos necessários o mais rápido que puder — ele assegurou.

— Diga a eles que é para a celebração de fim de ano — ela disse a ele.

— Claro, minha senhora, por quem me toma? Espionarei o Tenente em segredo e não direi uma palavra.

A maneira como Raúl enfatizou suas palavras deixou Inês mais desconfiada. Parecia que ele contaria a Cássel todo tipo de coisa. Mas os únicos criados caros que ela podia pedir para entregar algo eram Alfonso e Raúl, então ela não tinha muita escolha. Ela pensou que ter o servo mais jovem e mais bonito entregando a comida e os presentes pareceria melhor.

Raúl chamou Arondra e saiu rapidamente da sala.

Sozinha mais uma vez, Inês olhou para o assento à sua frente, onde Cássel geralmente se sentava.

Ele agira como se nada tivesse acontecido, mas ela se perguntava se ele estava realmente zangado com ela. Ele tinha que estar, ela pensou, enquanto tais pensamentos tolos se recusavam a sair de sua cabeça. 

Não importava, afinal. Por que ela se importaria se Cássel perdesse o interesse nela agora? Ela tentou colocar algum juízo em si mesma, mas continuava a se sentir uma tola.

Ele lhe dissera que ela se sentiria muito melhor quando acordasse, mas fora uma mentira. Ela se sentia tão mal quanto antes.


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