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Capítulo 35 — Preparações Minuciosas

Quando Inês era mais jovem, ela reunia informações úteis nas festas íntimas de vinho no Castelo de Perez. Embora geralmente detestasse eventos sociais, tentava entrar furtivamente nessas festas porque convidavam advogados locais, administradores de terras, médicos e consultores fiscais em Perez.


Sua mãe, a Duquesa Valeztena, sempre descartou tais eventos como um incômodo obrigatório. Ela desdenhava a ideia de dar festas para entreter aqueles que "nem eram de sangue nobre", mas adoravam ouvir a si mesmos falarem. O único propósito desses eventos era conquistar seus negócios e a lealdade à família Valeztena com vinho caro.


Mas para Inês, essas festas eram um tesouro de informações valiosas. Nessas ocasiões, ela conversava com indivíduos diferentes, cada um com conhecimento único.


Certa vez, encontrou um advogado de divórcio retornando à sua cidade natal após exercer a advocacia por dez anos em Mendoza. Aprendeu os sinais reveladores de um marido mentiroso durante uma conversa com um médico. Conheceu um administrador de terras que compartilhou dicas sobre como comunicar decisões egoístas de uma forma que parecesse mais generosa. Um consultor fiscal lhe ensinou como identificar e cometer sonegação fiscal ao mesmo tempo.


Inês prestou muita atenção a essas informações porque tinha grandes ambições para sua nova vida. Em particular, o advogado de divórcio forneceu uma informação crítica:

Há muitos casos em que o depoimento de funcionários também é reconhecido em um tribunal de divórcio. No entanto, testemunhas compradas não são uma garantia absoluta... Por exemplo, há casais que subornam as pressas os seus empregados logo antes do julgamento. Existem funcionários inteligentes e outros nem tanto... Entende? Por mais urgente que seja, sempre fica alguma brecha. Se uma única contradição aparecer, todas as palavras dos outros funcionários serão consideradas mentiras compradas com dinheiro. Mas aqueles que sabem agir com naturalidade serão validados.


A jovem Inês assentia enquanto rabiscava em um papel:

'Comprar... Testemunhas... Nunca... Deixar... Rastro...'


— Senhorita Valeztena, está tomando notas?


— Continue falando.


Também acontecem cenários assim: a compra parece ter sido um sucesso, mas, no tribunal, o funcionário apresenta um depoimento totalmente inesperado.


— Uma traição?  Inês deduziu.


— Isso mesmo. É o que acontece quando um empregado quebra uma promessa.


— Mas será que isso acontece porque o comportamento habitual do patrão era insuportável?


— Exatamente. Na verdade, esse é o caso na maioria das vezes. Há momentos em que o patrão é injusto, mas geralmente o rancor surge porque os funcionários não têm sentimentos bons por ele, ou foram tratados sem nenhuma consideração...


— O karma pode ser assim.


— E quanto mais influentes são os aristocratas que possuem grandes feudos em Mendoza, mais difícil é calar a boca de todos os empregados. Portanto, quanto mais alto o status e mais amplo o círculo social, mais se investiga a reputação geral do lar, além dos depoimentos formais. São as impressões cotidianas que os patrões deixam sobre sua vida matrimonial. A verdade é que a reputação individual pesa muito. Juízes de alto ou baixo escalão pensam de forma parecida... Se eles simpatizam com alguém no início, tendem a acreditar que essa pessoa só agiu de forma correta, independentemente dos fatos objetivos do casamento.


— É irracional, mas vantajoso... — Ela rabiscou o caderno novamente. — Continue falando, senhor Moya.


O advogado retomou:


— Por exemplo, a Condessa Katia abriu um precedente há vinte e três anos com um julgamento bem-sucedido. Embora as evidências claramente apontassem para seus amantes ilícitos tanto quanto para os de seu marido, ela tinha uma excelente reputação em sua mansão. As principais testemunhas estavam ansiosas para falar bem dela quando estavam no banco das testemunhas.


— Condessa Kartia... — Inês rabiscou o nome com suas mãozinhas.


O Sr. Moya a corrigiu:


— Não, Condessa Katia.


— Oh, meu Deus! — engasgou Inês. — Eu desonrei a respeitada Condessa Katia ao escrever seu nome errado.


O Sr. Moya pareceu confuso mais uma vez.


— Você a conhece?


Inês balançou a cabeça.

— Acabei de saber dela agora, mas ela imediatamente ganhou meu respeito.


O Sr. Moya tomou um gole de vinho.

— Devo estar te entediando... Por que você está interessada nas divagações de um advogado bêbado, afinal?


— Sr. Moya, é preciso estar preparada para todas as possibilidades. Afinal, a vida pode ser imprevisível. — Inês bateu duas vezes no caderno com a caneta. — O ideal seria ter um casamento feliz, mas devo estar preparada caso ele desmorone.


— Senhorita Inês, por favor, corrija-me se estiver errado, mas... você não tem dez anos de idade?


— Você está se desviando, Sr. Moya. — Inês olhou para o caderno e voltou a fitá-lo. — Então, para resumir o que você disse: construir uma reputação sólida na casa é importante. Certo?


— Sim, a atitude das testemunhas é crucial. — O Sr. Moya lançou um olhar de soslaio para as mãos ocupadas dela. 


— Você... ainda está tomando notas?


Finalmente, Inês havia chegado à solução perfeita para seu problema: precisava construir uma reputação impecável para si mesma ao longo do tempo. Nenhum dos funcionários da casa deveria perceber que estavam sendo lentamente conquistados por seus grandes esquemas.


✽ ✽ ✽


Hoje, Inês estava conversando com mais uma criada.

— Então, você gosta do ambiente de trabalho e da sua agenda? — perguntou Inês.


— Sim, senhora. Estou satisfeita. — A empregada balançou a cabeça ansiosamente em concordância.


— E quanto ao seu pagamento?


— Hum... posso ser franca com a senhora?


— Claro. — Inês respondeu com firmeza. — Se algo estiver faltando, eu imediatamente discutiria com Arondra ou Alfonso para fazer ajustes.


— O pagamento é mais do que suficiente, madame. Suspeito que estou sendo paga em excesso, na verdade. Sua Senhoria é generosa demais com sua equipe...


Inês duvidou do que ouvira. Seus lábios sorridentes se contraíram diante da resposta inesperada.

A empregada continuou:


— Todo mundo quer trabalhar aqui, e eu tenho sorte que Arondra me escolheu. — De repente, mordeu o lábio, e os cantos dos olhos se contraíram. — Eu não deveria ter dito que sou super paga?


— Com o que você está preocupada?


— Fiquei preocupada que a senhora pudesse reduzir meu salário para cortar custos... — confessou a empregada, hesitante.

Inês dispensou a preocupação com um gesto.


— Não se preocupe com isso. Meu marido fez boas escolhas, e não preciso mudar nada.


Os olhos da empregada brilharam  alegremente em resposta.

— Estamos simplesmente encantados que nosso Senhor tenha encontrado sua companheira para a vida toda......


— Certo, certo. — Inês a interrompeu antes que dissesse mais alguma coisa sobre compromissos para a vida toda. Em vez disso, empurrou os doces para a bandeja da empregada, gesticulando para que se servisse.


— Senhora... não posso ousar comer algo tão valioso...


— Seu almoço foi há horas, e você deve estar com fome agora. Sirva-se. Preciso te pedir um favor mais tarde, de qualquer forma.


— A senhora não precisa me dar essas guloseimas para me pedir um favor. Estou feliz em ajudar a qualquer momento...! — Mas a empregada parecia severamente tentada; suas mãos se remexeram no colo. — Posso... mesmo?


A outra criada, que trouxera o prato, insistiu:

— Pegue-o. A senhora está sendo generosa.


Assim que a empregada colocou o biscoito na língua, sua expressão tensa derreteu em um olhar de pura felicidade. Toda a rigidez que sentia por falar com sua patroa desapareceu.

 

"Comida de graça funciona melhor do que pagar salários absurdos..."


Inês franziu o cenho de forma imperceptível para o servo e descartou o item "aumento de salário semanal" de suas anotações mentais. Em vez disso, sublinhou "recompensas intermitentes" e "boa comida".


Em um mundo onde o dinheiro comanda o coração, quem tem recursos pode gastar à vontade. Essa era a lei. Independentemente da relação entre patrão e empregado, é difícil não se encantar por alguém que dá com generosidade.


Inês pretendia entender cada detalhe da gestão, a começar pelos custos domésticos diários. O mais simples seria descobrir os salários deles, mas estava claro que apenas ouvir os valores não faria sentido. Na realidade, o mais simples seria encontrar o livro de registros. No entanto, ele costumava ser guardado pelo mordomo, e Afonso ainda a olhava com desconfiança... Ele poderia pensar que ela estava suspeitando de algo se exigisse ver todos os livros contábeis às pressas... Sim, essa parte não deveria ser apressada.


Perguntar "quanto é muito dinheiro?" ou "quanto eles ganham?" não daria uma referência confiável para uma mulher de alta estirpe que não conhecia o custo de vida das pessoas comuns. Fazer esse tipo de pergunta só revelaria sua total ignorância sobre os valores reais. Claro, era natural que ela não soubesse, mas não havia necessidade de expor isso. Se desse um passo em falso, a fofoca se distorceria entre os criados até virar algo como: "Ela é uma fidalga tão arrogante que, mesmo se dissermos o quanto gastamos, ela não faz a menor ideia".


Claro, ela conhecia a pobreza. A vida com Emiliano havia sido a própria definição de dicionário para a escassez. No entanto, aquilo não bastava para entender a economia padrão e o sentimento da vida das pessoas comuns em Ortega. Em uma rotina miserável, onde vendiam uma joia ou um quadro de vez em quando para conseguir uns trocados, era impossível compreender o fluxo financeiro de um cidadão comum.


Os altos e baixos de sua vida com Emiliano foram extremos. Mesmo quando não estavam totalmente na miséria por terem vendido um metal precioso no início, aquela realidade ainda parecia miserável segundo os padrões de Inês. Ela era uma pessoa que nunca precisara olhar o preço de um objeto até então. E, desde o momento em que começou a se importar com o custo das coisas, infelizmente, só encontrava o que não podia pagar...


No início daquela fuga, as joias que Inês havia roubado do castelo de Pérez, e mais tarde a venda das pinturas de Emiliano, garantiram o sustento deles por alguns anos. No entanto, Inês não compreendia o valor real de itens caros e sequer assimilava a unidade do dinheiro; por isso, a maioria daquelas relíquias preciosas foi vendida por uma ninharia se comparada ao valor real. E Emiliano também não tinha a menor malícia para negociar suas obras por um preço justo.


Ela e Emiliano eram românticos irresponsáveis, apesar da pobreza. Ele sempre a tratava como uma princesa com o pouco que tinham, chegando a fazer todas as compras e recados para ela.


"Não é de se espantar que eu não saiba nada sobre dinheiro".


Um sorriso fingido apareceu em seu rosto. Como a equipe já estava feliz com o pagamento, precisava de outra maneira de conquistá-los. Planejava usar o dote da família Valeztena, enchendo-os de iguarias e presentes. Afinal, ninguém podia dizer não a comida deliciosa e presentes.


— Como eu poderia ser mesquinha com as pessoas que me servem? — disse Inês, em tom gentil. — Mesmo que digam que o pagamento é suficiente, eu aumentarei novamente depois da colheita ou no ano novo. Vocês terão dias de folga durante os feriados e bastante carne e vinho para compartilhar com suas famílias.


— Oh, meu...! A Senhora não precisa—


A empregada que havia falado primeiro foi interrompida pela mais humilde, que não conseguiu recusar a oferta:


— Madame, tenho certeza de que a equipe ficaria mais do que grata por sua generosidade. Então, por favor, ignore as opiniões dela e faça o que quiser.

Inês colocou um sorriso amigável no rosto.


— Dinheiro não é a resposta para tudo, certo?


Mas, infelizmente, o dinheiro era a resposta para tudo. Inês também sabia que era igualmente fácil os empregados passarem a tomar a generosidade do patrão como garantida. Por isso, decidiu recompensar a equipe apenas em ocasiões especiais.

Queria que seus gestos generosos deixassem uma impressão duradoura. Presentes de feriado e de férias se tornariam memórias agradáveis que eles guardariam com carinho.


A melhor parte dessa estratégia era que ela não estava, tecnicamente, subornando ninguém para garantir sua lealdade. Seus presentes seriam vistos apenas como gestos de uma patroa generosa e atenciosa.

Por um instante, sua veia competitiva a fez esquecer que tudo não passava de um cálculo frio.

Seu verdadeiro objetivo era plantar rancor entre Cássel e seus próprios criados. Mas logo se lembrou de que não precisava que eles o odiassem. Nem mesmo desejava seu afeto. O que importava era que recordassem, no momento certo, do adultério que ele inevitavelmente cometeria. 


Assim, testemunhariam que Cássel era um homem afável, porém marcado por uma falha grave: seu desejo incontrolável por outras mulheres.


Para isso, Inês precisava se fixar na mente dos servos em uma posição igual ou até ligeiramente mais favorável do que o próprio amo. Bastava que todos naquela casa estivessem tão fascinados por ela que, no fim, escolhessem seu lado em detrimento da lealdade aos Escalante.

O objetivo ganhava contornos cada vez mais nítidos em sua mente. Enquanto observava a criada devorar os biscoitos sem nenhuma elegância, Inês saboreava a sensação de ver seu plano tomando forma.


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