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Capítulo 36 — Grande Reforma

Era início da noite quando Cássel retornou à sua residência. Ele hesitou na porta principal por um momento, observando a residência oficial que o recebia com um aspecto completamente diferente daquele em sua memória.

Para ser mais exato, a casa estava em pleno processo de "mutação". Com um visual que não parecia saber quando terminaria essa etapa de transição... Ele viu servos e criadas correndo pelos corredores não muito amplos, incluindo os jardineiros, as arrumadeiras e os mordomos.


Na verdade, nenhum deles sequer notou o retorno do patrão. Cada um dos homens estava ocupado carregando móveis pesados, e as mulheres corriam segurando pilhas de ornamentos, mudando-os de um lado para o outro.

Cássel viu um tecido amarelo pelo canto do olho. Quando estreitou os olhos e se virou para o corredor, percebeu que era Inês, movendo-se com uma velocidade que ele nunca tinha visto antes.

Ao vê-lo ainda parado na porta, ela o recebeu com braços abertos e um sorriso no rosto.


— Cássel, você voltou! Entre. Você deve ter trabalhado duro hoje.


Cássel ficou estupefato por um momento. A teimosa e implacável Inês poderia recebê-lo assim? Mal podia acreditar nos próprios olhos.


— Por que você ainda está parado aí? — Inês fez sinal para que ele entrasse. — Entre.


Cássel ainda olhava para Inês com desconfiança. Seu gesto convidativo e sorriso amigável pareciam os de uma esposa comum. A voz dela era otimista demais, e o discurso, gentil demais. Seus olhos percorram as mãos pálidas apoiadas em seu braço.


— Ah, você deve ter se assustado com o caos — disse Inês, assentindo como se entendesse o que ele estava pensando. — Eu estava querendo organizar a casa, meu querido.


— “Meu querido?” — repetiu Cássel em tom incrédulo.


Inês não deu atenção e continuou:


— Como você sabe, estou um pouco desmotivada... letárgica desde que cheguei em Calztera.


Até onde Cássel se lembrava, Inês estava longe de estar deprimida ou desmotivada. Pelo contrário, ela sempre parecia perfeitamente contente em sua preguiça intencional. Ela agia como um gato em seu ápice: preguiçosa, mas plenamente satisfeita... Um estado ideal onde a energia parecia poupada, e não propriamente letárgica.


Cássel sempre imaginou que a vida com Inês seria devota e chata. 

Em sua mente, ela parecia a mulher que acordava ao amanhecer para meditar nas escrituras e rezar. Mas, na realidade, Inês estava colada ao travesseiro — não à bíblia — todas as manhãs. Mesmo quando ele acariciava seus mamilos ou enterrava o rosto em seu pescoço, ela apenas franzia a testa e resmungava incoerentemente.

Ele se perguntava se existia uma palavra que combinasse menos com Inês Valeztena do que "fofa", mas, surpreendentemente, Inês Valeztena pela manhã — não, Inês Escalante — só fazia coisas fofas.


Claro, apenas quando estava meio adormecida.


Esta noite, Cássel sentiu algo estranho em Inês. Ele duvidou se ela estava em seu perfeito juízo agora — e não de uma forma cativante. Quanto mais Cássel ficava sem responder, mais Inês o instava, com a mão apoiada em seu braço.


— Você sabe disso, certo? — perguntou ela novamente.


Cássel sentiu a pressão de concordar, soubesse ou não. Então respondeu:


— Sim, eu sei.


— Mas veja, eu percebi uma coisa esta manhã.


— Percebeu...?


— Percebi que preciso colocar tudo em seu devido lugar — disse Inês. Sua voz era tão inflexível que Cássel se perguntou se ela também planejava colocá-lo de volta em seu devido lugar.


Devido ao turbilhão de atividades em torno da reorganização dos móveis, a casa parecia ainda pior do que pela manhã. No entanto, Inês ainda parecia positivamente revigorada e calma.

Arondra interveio:


— De fato! A casa estava uma bagunça tão grande que os móveis praticamente empurraram os moradores para fora... Se não fosse pela Senhora Escalante, poderíamos ter vivido nessa bagunça por mais alguns anos.


Arondra parecia ter esquecido que Cássel nunca teria se mudado para essa casa menor se não fosse por Inês em primeiro lugar.


— Duvido — disse Inês com um sorriso envergonhado.


Arondra balançou a cabeça.


— A Senhora conhece o mestre Cássel. Ele nunca teria feito um esforço para resolver a situação.


Inês assentiu:


— Verdade... a casa já estava caótica quando cheguei.


Elas conversavam diante dele, trocando elogios com naturalidade. Arondra não hesitava em exaltar Inês enquanto ela se recostava na cadeira do terraço e adormecia feliz. Era comum ouvir: "A Senhora Escalante, até mesmo respirando, transborda dignidade". 


Se ele pensasse no Duque de Valeztena — que sugerira a Cássel que parasse de respirar só porque não gostava do jeito que ele respirava —, aquela situação parecia um espelho invertido. Cássel passou pela pequena governanta, que olhava para a patroa com uma afeição tão profunda que parecia sua mãe biológica, e caminhou em direção ao corredor.

Então, Inês o seguiu.

Inês Escalante o estava seguindo... e colocando o braço dela em volta do dele. Ela então abraçou o braço dele e se inclinou. Imediatamente, o cérebro de Cássel parou de funcionar por um momento. 


"O que diabos está acontecendo?"


Cássel tinha dado o braço a Inês em inúmeras festas, mas nunca em um abraço caloroso como agora. Em vez disso, ela sempre mantinha as costas eretas e sutilmente se inclinava para longe dele. Ela nunca tinha sido tão cordial, mesmo quando nutria um amor não correspondido por ele. 


"Então por que ela agiria dessa forma de repente?"

"Por que agir assim agora, se ninguém a estava pressionando?"


Os servos que passavam carregando os móveis, como se quisessem engolir as dúvidas de Cássel, mal o saudaram e, arfando pesadamente, moveram outra peça enorme em direção à entrada principal.

Era óbvio que os móveis, que mal caberiam em uma sala de estar, estavam sendo empilhados diante da porta principal sem critério, indicando que seriam descartados ali mesmo. Ele observou a cena por um instante e desviou o olhar, voltando-se para Inês, que ainda respirava um pouco acelerada ao seu lado. Ela de repente disse:


— Não estou tentando mudar muita coisa. Apesar de ter deixado a residência nesse estado, você deve ter tido motivos para organizar a casa desse jeito.


Cássel levantou uma sobrancelha. Ele seria no mínimo um cara excêntrico para deixar de propósito a residência daquele jeito. As coisas estavam assim por falta de espaço.


— É mesmo?


— Ainda assim, tenho algumas coisas para jogar fora e queria perguntar se podia descartá-las quando você voltasse. Somente com sua permissão, é claro.


O olhar de Cássel viajou para a poltrona que já havia sido empurrada para fora da entrada. Então voltou seu olhar para Inês. Ela não demonstrou um pingo de constrangimento por sua mentira descarada.

Ele analisou novamente aquele semblante estranho. Um vestido amarelo vibrante que nunca a vira usar, um rosto com uma leve maquiagem inédita, o cabelo longo e simples preso em tranças frouxas com fios finos caindo sobre as orelhas, acompanhado de um sorriso pretensioso e gentil...


Tudo parecia fora do lugar.

"Que teatro é esse? Quem ela está tentando agradar?"


Desde a infância, a vida social de Inês consistia em manter a palavra "Não" na ponta da língua. Diante do Príncipe Herdeiro, ninguém jamais conseguira fazê-la forçar um sorriso; ela não cedia nem mesmo perante o resto da Família Imperial. Agia como se alguém fosse puni-la caso ousasse sorrir por pura educação... Com uma natureza social tão implacavelmente fria com qualquer um, como aquele comportamento dócil de agora era possível?


Estava claro que havia algo suspeito naquela cabecinha, muito além de uma simples reorganização de móveis.


— … Não preciso dar permissão alguma. Tudo isso é seu, então faça o que quiser.


Mesmo desconfiado, ele respondeu como se estivesse hipnotizado. Ele engoliu a seco as palavras que quase escaparam de sua boca: "Não me importo se você jogar a casa inteira no lixo".


✽ ✽ ✽


— Senhora, para onde devemos mover esta mesa de cabeceira? — perguntou um dos servos.


— Por favor, leve-a para fora, pela porta principal. — respondeu Inês.


Cássel, que estava sentado no terraço do lado de fora do salão, observava o interior através da porta aberta de par em par. Seu corpo estava voltado para a sala, de costas para o mar.

No centro de seu campo de visão, Inês andava ocupada pelo salão, apontando as ordens com o dedo. No que diz respeito aos nobres, ele se perguntava se todos nasciam assim, mas Inês parecia particularmente absorta em dar ordens e se banquetear com o esforço alheio.

Aquilo parecia natural para ela. Como Oscar disse uma vez, «Inês nasceu para ser da classe dominante» . Mesmo entre a aristocracia, Inês era excepcionalmente adequada para comandar pessoas. Em festas, ela não hesitava em dar ordens até mesmo àqueles de sangue nobre.


"Talvez casar-se com Óscar tivesse sido o mais adequado para ela..."


De repente, sentindo o humor azedar com esse pensamento, Cássel voltou a olhar para Inês e para o panejamento amarelo vibrante de seu vestido em movimento.


Mesmo hoje, ela exalava um aroma perfumado e artificial. Ela sempre cheirara bem no passado, mas hoje parecia ter borrifado o perfume de modo que o rastro ficasse suspenso em cada canto por onde passava. Não era apenas um cheiro suave; era uma fragrância marcante, um ato típico de uma grande dama da alta sociedade. Ao mesmo tempo, era um comportamento incomum vindo de Inês.


Em Mendoza, borrifar perfume para mascarar o próprio odor era considerado mais na moda do que tomar banho. Cássel nunca gostou dos aromas artificiais dos perfumes. Ele era sensível a cheiros e, portanto, frequentemente ficava enojado com os odores misturados de suor e perfumes caros que tingiam o ar. Provavelmente era por isso que ele tinha ficado tão excitado pelo aroma fresco e natural de Inês em primeiro lugar.


De repente, suas calças ficaram apertadas quando sentiu outro cheiro da fragrância dela. Ele olhou feio para Inês se aproximando de um servo e franziu a testa ao perceber o quão ridículo estava sendo. Sua virilha aparentemente respondia a todos os cheiros dela, artificiais ou não.


Ao imaginar como ela devia ter se sentado em frente ao espelho da penteadeira, erguendo o rosto com nobreza e borrifando o perfume em seu pescoço esguio... 

......Não havia como racionalizar por que aquela cena o afetava tanto. Ele sequer conseguia explicar por que estava pensando nisso.


"Será que ela se sentou em frente àquele espelho e se lembrou do que aconteceu naquela noite?"


Se aquela lembrança lhe viesse à mente, ela ficaria envergonhada, mesmo que por um breve segundo, com aquele rosto que ele conhecia tão bem... Por um instante, a imagem dela incapaz de conter o pudor, com as bochechas coradas, a respiração pesada entre os lábios e o peito subindo e descendo com avidez, invadiu a mente dele, uma após a outra.


"Que inferno. O céu ainda estava claro".


Ele distorceu a expressão enquanto olhava para o céu limpo, onde sequer se via o prenúncio do pôr do sol sobre o mar. Como Inês ainda exigia que eles só tivessem relações sexuais à noite, um dia em Calstera, tão próxima aos trópicos, era longo demais.

Além disso, mesmo que o sol se pusesse, será que aquela sucessão de eventos terminaria?


— Senhora, e quanto a esta cadeira de balanço?


— Fora da porta principal também, obrigada.


Inês dava as ordens de descarte com extrema elegância, designando cada lugar antes de dar as costas. A maioria dos objetos estava a caminho da entrada. No entanto, os servos faziam as perguntas com extrema sinceridade, e Inês sorria enquanto os incentivava...


"… Por quê?"


Seus pensamentos foram cortados, deixando apenas uma pergunta muito simples e primitiva. Ele havia consultado Yolanda em segredo para saber se a esposa havia ingerido algo estragado durante o dia, mas a governanta garantiu que a patroa apenas comera pequenos petiscos, como de costume.

Quando Cássel foi trabalhar naquela manhã, ela não demonstrava nenhum traço dessa energia proativa.


"Então, por quê?"


Era simplesmente surpreendente e bizarro observá-la agir daquela forma. Além disso, que tipo de harmonia era aquela sintonia natural entre eles? Era como se ela conhecesse cada um daqueles funcionários homens da residência oficial há anos, chamando sempre cada um pelo próprio nome.


— Hugo, por favor, leve isso também. Sim, aquele. Você consegue carregar sozinho? Ou devemos chamar o José? Oh, meu Deus! Você consegue carregar tudo sozinho! — disse Inês, entusiasmada.


Hugo sorriu orgulhoso com o elogio de sua Senhora e tentou ao máximo esconder suas mãos trêmulas.



— Não é nada difícil, senhora.


— Cássel, venha ver! Hugo pode carregar esta enorme penteadeira sozinho! — gritou Inês, dando até um passo de lado para que Cássel visse.


Embora ela falasse sem esperar uma resposta e de maneira ruidosa, chegou a dar um leve salto para o lado, como se temesse que ele não estivesse prestando atenção.


Cássel respondeu com uma expressão ligeiramente incomodada:


— Já estou vendo.


— Não é uma força impressionante?


Em vez de responder às palavras dela, Cássel ficou encarando a mão trêmula do servo. Teria sido melhor para o homem sair rapidamente daquela sala com o punho fechado, mas era lamentável que ele estivesse ali parado, incapaz de se mover porque Inês insistia para que Cássel olhasse para ele.


"Olhar para algo tão óbvio, e como ela consegue elogiá-lo tanto por algo tão simples?"


Para não se estressar mais com aquilo, Cássel sorriu e assentiu com a cabeça. Mas fez isso de forma muito lenta.


— De fato.


— Não é? Acho que ele é, provavelmente, o homem mais forte desta residência oficial...


— Oh, senhora, quanta bondade — o servo gaguejou.


As mãos do homem tremiam terrivelmente, mas ele ainda tentava manter a pose. Cássel ergueu as sobrancelhas e silenciosamente fez sinal para que Inês notasse como Hugo tremia fortemente. Mas Inês não deu atenção às dicas de Cássel. Em vez disso, virou-se para Hugo e disse:


— Por que ainda está aqui? Vá rápido.


Ela então acrescentou com um sorriso:


— Ficar aqui só vai aumentar seu fardo.


Por um segundo, Hugo pareceu ficar sem palavras, mas sua confusão rapidamente desapareceu quando viu o sorriso de Inês.


— Cássel, é uma grande sorte que as pessoas nesta residência oficial sejam tão diligentes.


— ......


— Leve Hugo, por exemplo. Ele nos espera sem uma palavra de reclamação... — disse Inês, dando um suspiro dramático e balançando a cabeça em frustração fingida com a lealdade exagerada de sua equipe.


Elogios como aqueles, que eram tão teatrais que chegavam a soar falsos... Mas as criadas que ficaram para trás, limpando o vaso e trocando os castiçais, pareciam radiantes.


"… Era isso?"


Há momentos em que as atitudes mais difíceis de compreender de repente se tornam claras. Cássel começou a decifrar as ações de Inês uma a uma.


Ela fingia falar de forma despretensiosa, mas era um elogio indireto que soava ainda mais sincero justamente por não ser feito cara a cara... O povo de Calstera era ingênuo, então não era preciso muito para convencê-los. Se as criadas comentassem sobre aquele momento durante o jantar, o servo provavelmente nem conseguiria dormir à noite de tanto orgulho.


Com um rosto que não combinava em nada com sua postura habitual... Cássel engoliu um suspiro de irritação. Na verdade, até que combinava. Do um ao dez, tudo aquilo era apenas um pretexto, e, estranhamente, ela parecia se encaixar naquele papel como se o fizesse todos os dias. Ela não conseguia disfarçar bem, e vê-la fazer coisas que nunca fizera na vida o deixava intrigado por ser algo novo...


Ele ergueu levemente a cabeça novamente, ignorando o sentimento de derrota que já virava hábito, e por um instante relembrou as palavras gentis e a hospitalidade dela na porta principal. Também era verdade que ela fizera questão de que ele visse tudo. 

Nenhuma das mudanças dela eram motivadas por ele. Infelizmente, era dezessete anos tarde demais para isso. Seus próprios funcionários eram os verdadeiros alvos daquele comportamento duvidoso...


"Ainda assim, por quê?"


As suspeitas foram deixadas de lado por um momento. Ao distribuir fingimento e gentileza para os empregados, para que diabo ela pretendia usá-los? Se ela fosse uma pessoa que se importasse tanto com a opinião dos outros, não teria ganhado o apelido de "o corvo da família Valeztena". Mesmo nos banquetes imperiais, ela era uma mulher descarada que desdenhava até da Família Imperial...


— Como o Hugo ficou tão forte? Olhe aquilo, olhe aquilo! Ele mal voltou e já ergueu aquela moldura pesada sozinho...


No entanto, a linha de raciocínio aguçada de Cássel se desfez em um instante, por uma pontada de ciúmes. 


"Maldito seja aquele bastardo..."


O homem era o problema. Sentir um espírito competitivo sem qualquer utilidade, de repente e sem aviso, o impedia de pensar em outra coisa.

Sem saber o que se passava na mente de Cássel, Inês acrescentou combustível ao fogo:


— Hugo tem apenas metade do seu tamanho, Cássel.


— Inês... eu não sou tão grande assim.


— É mesmo? Eu sempre pensei que você tivesse uma estrutura grande.


— O que Hugo levantou não foi nada.


Mesmo enquanto dizia isso, Cássel sabia que estava sendo mesquinho. Para um homem magricelo com uma constituição abaixo da média, Hugo estava puxando muito mais do que seu peso. Em comparação, Cássel era muito mais alto que a média, nasceu com ombros largos e tinha músculos de seus anos de treinamento.


Então, Inês não estava errada em sua avaliação. 


"Eu poderia levantar aquela penteadeira com uma mão..." Então, rapidamente se corrigiu: "Preciso usar as duas mãos para me equilibrar, mas nunca tremeria como Hugo".


Inês não lhe lançou um olhar e perguntou:


— Ah, é mesmo?


— Hugo lutou bastante para levantar isso. Ele só se mostrou corajoso porque você o pressionou.


— Entendo — murmurou Inês, sem um pingo de interesse.


Cássel sabia que ela não estava prestando atenção nele. Tudo o que ela se importava era parecer gentil e generosa com os funcionários. Até mesmo a demonstração anterior de afeto era uma performance para a equipe ver. Seu ciúme distorceu sua percepção da pergunta neutra de Inês — “Ah, é mesmo?” — em um comentário cético e desdenhoso. Ele imaginou que Inês via através de seu ciúme infantil e duvidava que ele fosse tão forte quanto Hugo.


Logo, Cássel se juntou à multidão de homens que transportavam móveis. Mas, mesmo quando recuperou o título de homem mais forte da casa, ele não conseguiu evitar a sensação de ter sido enganado por Inês.


✽ ✽ ✽


— Eu estava pensando — disse Inês — deveríamos reconstruir a cerca na ala oeste. O que você acha?


Cássel mastigou sua comida sem registrar nada do que ela acabara de dizer. Mas Inês não se importava se ele escutava ou não.


— Uma ponta é mais curta que a outra... a menos que a diferença seja intencional? Mas isso parece improvável. Mesmo que a cerca fosse mais alta, ainda teríamos a vista completa do Cerro Logorño... — Inês estava absorta em planejar e comer sua comida — Abaixar a cerca revelaria mais da bela vista.


—  ......


— Hmm... E se demolíssemos todos os três lados, exceto o lado oeste? Ah. Talvez fosse melhor demolir tudo e começar do zero.


Com apenas alguns pensamentos, o projeto de Inês cresceu de consertar um lado da cerca para reconstruir toda a cerca. Afinal, ela era conhecida por suas decisões impulsivas.


— Sim, vamos fazer isso. Vamos derrubar todos os muros e cercas. Então, poderíamos construir a nova cerca de madeira e pintá-la de branco para combinar com a casa. Uma cerca de estacas brancas ficaria pastoral... — Ela inclinou a cabeça para um lado — Agora que penso nisso, um visual de casa de fazenda pode ser informal demais para a residência Escalante.


Até agora, Cássel não havia dito uma única palavra. Tudo o que fez foi empurrar mais carne para a boca enquanto olhava desconfiado para ela. Ela continuou a divagar sobre seus planos sem dar atenção à falta de resposta dele. Embora frequentemente acrescentasse frases como — O que você diz? — ou — Você acha que seria melhor? —, Inês não esperava que Cássel respondesse.


Inês parou por um momento para mastigar sua comida. Depois de engolir, voltou a falar:


— Uma cerca de aço pode parecer tão convidativa quanto uma cerca de estacas se a pintarmos com uma cor quente. O que você acha? Poderia combinar com as paredes brancas da casa também. Então, podemos construir uma parede externa de pedra clara e decorar a parte superior com adornos metálicos.

Virou-se para o mordomo e perguntou:

— Alfonso, o que você acha?


— A senhora tem uma excelente visão — respondeu o mordomo.


— Não diga apenas o que você acha que eu quero ouvir, Alfonso. Diga-me sua opinião honesta, como um cavalheiro educado.


Inês falou em um tom suave, ignorando a postura rígida do funcionário. Uma expressão ligeiramente desconcertada surgiu no rosto sempre solene de Alfonso.


— Eu realmente quis dizer o que disse, madame... A cerca serve como base estética para a casa. Se você mudá-la de acordo com seu gosto, a casa parecerá mais refinada.


— Não é?


— A cerca atual já parece um tanto desgastada. De qualquer forma, ela precisava de reparos.


— Você ouviu isso, querido? Alfonso concorda comigo.


— ……


"Querido?"


— … Peço perdão, senhora, mas parece que o Capitão está ocupado demais admirando o rosto da senhora há algum tempo — Alfonso pontuou, como quem apenas constatava um fato óbvio.


Só então Inês olhou diretamente para Cássel.


— Oh, havia algo no meu rosto?


"Havia algo ali, sim. Algo extremamente suspeito..." — Cássel se perguntou se sua própria expressão denunciava aquele pensamento, e então esboçou um leve sorriso irônico.


— Seu rosto está perfeito agora.


— Então por que me olhava assim?


— Eu estava me perguntando por que você está agindo dessa forma.


Inês inclinou a cabeça, afetando uma expressão de quem não fazia a menor ideia do que ele estava falando. Estava claro que ela entendera perfeitamente, mas preferia fingir ignorância.


— Oh, você é contra reconstruir a cerca?


— Não, não tenho problema com isso.


— Se você não se opõe, então ... — Inês virou a cabeça em direção ao mordomo — Alfonso, por favor, chame os empreiteiros amanhã.


— Sim, senhora.


— Por um momento, pensei em repintar as paredes externas da residência, mas os tijolos rosa são charmosos. Acho que podemos deixá-los como estão, não acha?


— Claro — concordou Cássel.


— E eu estava pensando em construir uma sala de jogos...


À menção de mais um projeto, Cássel não se conteve.


— … Por que você está fazendo tudo isso? — deixou escapar.


Alfonso, que estava posicionado entre os dois pronto para servir a água, estancou o movimento da garrafa a meio caminho. Inês notou o incômodo de Afonso mas decidiu fingir ignorância para manter a pretensão.


— Você está perguntando por que precisamos disso?


— Não, eu—


Inês interrompeu antes que Cássel pudesse terminar.


— Não é para mim. Eu quero criar um espaço melhor para você se divertir, afinal, você deixou sua mesa de bilhar e seu tabuleiro de xadrez em uma disposição ridícula e fica jogando sozinho de forma lastimável. Há espaço de sobra para criar uma área de lazer...


— … Você está fazendo isso por mim? — ele perguntou, com um sentimento que beirava a comoção. Deixou-se levar por um instante, antes de recuperar a razão abruptamente.


"Área de lazer? Eu por acaso sou uma criança de sete anos para precisar disso? E o que ela quis dizer com 'jogando sozinho'...?"


— Não estou falando dessa sala de jogos.


— Então, do que você está falando? — perguntou Inês.


— Não me importo com nenhuma das mudanças que você está planejando. Mas não entendo por que está mudando tudo de repente.


— Você não se importa, mas quer entender? Apenas escolha um lado — respondeu Inês, voltando repentinamente à voz desinteressada. O sorriso falso e agradável ainda permanecia no rosto.


Cássel conseguia ver através de sua pretensão, mas o vestido verde e modesto enganaria qualquer um a pensar que ela era piedosa e recatada. Seu vestido verde hoje era uma das cores mais brilhantes que possuía.


Não foi apenas a cor do vestido que mudou de forma repentina. Todo o comportamento de Inês estava mais amigável e convidativo. De repente, ela se importava mais com a equipe e com a casa. Acima de tudo, quem imaginaria que Inês, de todas as pessoas, iria querer construir uma área de lazer — ou um cercadinho — para o marido?


— Estou falando de como você está agindo de forma fora do comum — disse Cássel.


— Não consigo evitar. A casa me inspira a ser criativa — respondeu Inês.


— Você não trocou os móveis do seu próprio quarto desde que tinha seis anos.

Inês fez um show de olhar abatido.


— Você está certo. Eu tenho estado desatenta por um tempo. Tenho estado tão deprimida, vivendo em um lugar novo......


— Deixe-me poupá-la do trabalho — interrompeu Cássel — Alfonso já saiu da sala.


Quando Inês percebeu que estavam sozinhos, seu sorriso falso desapareceu. Em vez disso, respondeu simplesmente:


— Estou cuidando da casa para você e para mim.


Todo o seu fingimento desapareceu, e suas palavras pareciam genuínas, o que só intrigou Cássel ainda mais. "Por que ela se incomodaria em enfeitar a casa a esse ponto?"


— E para os convidados também — acrescentou. — A casa precisa ter um aspecto apresentável para receber convidados.


— Convidados...?


— Sua condição atual é aceitável, mas não está pronta para uma festa—

"Uma festa...?" Os olhos de Cássel agora se estreitaram em um nível de genuína preocupação com a saúde mental de Inês.


— De que convidados você está falando...? Você nunca tem convidados.


— Eu não, mas você sim. Então precisamos que a casa esteja apresentável para seus convidados.


Os olhos de Cássel se enrugaram ainda mais nos cantos, cheio de preocupação.


— Inês, você não deve estar se sentindo bem.


— Estou perfeitamente bem, obrigado. Na verdade, quero convidar seu amigo José depois da missa no domingo.


Ele não conseguia acreditar no que ouvia.


— Convidar... quem? Para quê?


— Segundo Tenente José Almenara. Quero convidá-lo para um jantar em nossa casa.


A boca de Cássel ficou aberta.


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Comentários

  1. Kkkk fico lembrando das cenas no webtoon, coitado do José

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  2. acho bem legar ver o ponto de vista do Cassel, no manhwa não fica claro que ele consegue sacar todos os esquemas da Inês. Aqui a gente percebe que ele não é nada bobo, mas as emoções atrapalham sua logica

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  3. Kkkkk o Corcel é muito engraçado! Ver essa perspectiva é muito interessante! Obrigada pelo capítulo

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